Todos sabem do quanto gosto de viajar, especialmente quando são longas ou a sítios inóspitos...
Mas se calhar não sabem porquê, ou o que penso muitas vezes quando estou dentro do carro, mesmo que seja na mais banal viagem a FEUP...
Existem para mim alguns requisitos importantes para uma boa viagem, entre eles posso enumerar alguns:
-música, muita, boa, e diversa, pois a estrada tanto pode ser uma recta como pode ser a travessia dos Alpes;
-óculos de sol, pois há pormenores ou vistas que são completamente diferentes, por exemplo quando temos o Sol a bater de frente numa tarde de Verão, os reflexos podem-se tornar visões poderosas...
-um bom sofá, pois as viagens têm de ser confortáveis, ou tornam-se uma seca ao fim de pouco tempo
-obviamente o tipo de carro adequado para cada viagem, quanto mais versátil for mais e diversas viagens se podem fazer com ele (para mim a volvo 740 é uma boa escolha);
-companhia, se bem que ás vezes pode ser opcional;
-espírito aberto.
Depois do Check nisto tudo é só aproveitar...
Viajar tem o seu Q, para mim viajar é ser livre, é estar entregue aos pensamentos, e apreciar cada km que se percorre.
Á medida que vamos percorrendo todo o caminho seja ele planeado ou não, inevitavelmente a paisagem altera-se, e isto pode muito bem assemelhar-se á vida, pois nem sempre temos rectas ou Sol, e por vezes aparece aquele gancho á esquerda com gelo que só vimos no último momento...
É ver os sinais e escolher "obedecer-lhes" ou confiar nos instintos de que o carro (vida) aguente, e não parar na valeta.
O meu tipo de viagem preferida é aquela que não tem destino, é aquela que não sabemos se acaba bem, mal, rápido ou só passado muito tempo, é aquela que me leva a lugares tão estranhos que ponho em causa se existem ou não.
Gosto de saber que não sei o que se vai passar no momento seguinte. Basicamente pode traduzir-se como um desejo de conhecer o que anda aí.
Para mim viajar é aprender, mesmo que seja no deserto mais longinquo, um olhar atento a alguns pormenores pode ensinar muito acerca do resto do mundo, é ver um pássaro numa árvore, uma pedra com uma forma engraçada, ou um ribeiro com uma côr fora do normal, é ver uma cidade ao longe e imaginar o que lá se passa, querer ver e tocar o horizonte... ir mais além do que qualquer outro... Ver o alcatrão a desaparecer ao longe, ir contando as riscas do asfalto, ou os buracos de um caminho.
Muito importante em qualquer viagem é manter o ritmo, não perder demasiado tempo nas paragens, pois este depois pode revelar-se insuficiente na paragem seguinte.
É também uma boa maneira de esvaziar a cabeça, organizar as ideias, e é por isso que digo ás pessoas que o meu momento relax do dia é o caminho de ou para casa, mesmo com engarrafamento ou não. Muita gente não percebe, mas uma simples viagem dessas pode tornar o mundo num sitio melhor, basta apreciar cada coisa, por mais insignificante que seja por aquilo que exactamente é, e assim cada coisa tem o se lado feio e bonito, e este julgamento ajuda muito noutras coisas (difícil de explicar melhor).
Passo a uma breve descrição de um momento de uma hipotética viagem não sei onde, mas que vou fazer neste preciso momento:
O Sol bate na cara, o céu está claro, e a temperatura amena.
O depósito vai a meio e o motor sereno, em velocidade cruzeiro, pé constante.
No rádio uma música calma toca.
Tenho a janela aberta e o cotovelo apoiado, a mão a descansar no volante com os dedos a mexerem ao ritmo da música.
Olho para todos os lados e vejo mundo sem fim, quase que dá para ver a curvatura da Terra.
Vêm-se ao longe uma curvas que dançam ao de leve com as colinas que contornam.
Volta e meia passo uma árvore grande com a sua copa orgulhosa e verde a fazer sombra na estrada e quando passo por ela ameniza o calor do sol na cara por um milésimo de segundo.
Neste momento não existe mais ninguém.
Ao meu lado lá em cima anda uma águia a pairar aproveitando as correntes de ar e batendo as asas muito de vez em quando.
O sol vai-se retirando e a terra fica vermelha.
As colinas projectam sombras pretas gigantes.
Paro na berma e desligo o motor, saio, descontraio as costas e sento-me numa pedra.
Não se ouve nada a não ser a brisa nos arbustos, o motor a estalar das horas a fio a trabalhar e a águia lá no cimo.
Olhando para a estrada vejo as ondas de calor a sair do alcatrão preto que fazem com que pareça um lago.
O chão parece de repente imensamente detalhado, como se a mancha que se vê em movimento se tivesse transformado em milhares de grãos de areia de todos os tons, que fazem aquele barulho de gravilha quando o piso.
Quando o sol se retira tudo fica cinzento, e começam-se a ouvir grilos. Uma estrela longe dá aquele brilho diamante, ainda com alguma claridade no céu.
Volto, ligo o carro, os faróis e arranco, primeiro a sentir aquela pequena vibração da terra da berma e depois aquela suavidade do alcatrão quando as 4 rodas o pisam. Vou mudando de velocidade devagar, a sentir cada rotação do motor até atingir a velocidade de cruzeiro outra vez. Passo uma colina e vejo luzes ao fundo.
Penso em como será aquela cidade de que aproximo, que semelhanças terá com os lugares que conheço, ou que coisas diferentes me esperam.
Sorrio, volto a encostar o cotovelo á janela e avanço, deixando para trás aquela pedra onde estive sentado, sabendo que provavelmente nunca mais ali estarei, mas levando na memória esta recordação!

Boa viagem!!
(a descrição não foi feita com base na imagem, mas assemelha-se muito ao que estava a imaginar, é só tirar essa pick-up e meter a volvo)
2 comentários:
Desejar Boa viagem, é um bom começo!
E é importante fazer-se à estrada, às vezes sem, outras vezes com destino.
Aproveitar o prazer de estar só com os nossos pensamentos, arrumar ideias, e sentir-se vivo e parte do mundo.
O interesssante é que podemos fazer também isso a caminho de um qualquer destino. Ter um plano, querer chegar!
Quem sabe o que nos espera quando atingirmos a meta? Quando chegarmos a......? Chegamos mais crescidos porque a jornada foi dura, divertida ou relaxante e conseguimos chegar sem nos perdermos. E aí novas viagens vão surgir, e desejos de atingir outros pontos distantes.
É bom partir, é bom chegar, Boa viagem, Bernardo
PS Não te esqueças que também é bom ter companhia ;)
Beijo
M
Bernas:
O espaço e o tempo, apesar de serem complementares, ou por isso mesmo, são duas coisas muito distintas.
No espaço, o movimento é relativo. Não te aproximas de um ponto sem que ele se aproxime de ti.
Podes escolher mover-te. Também podes escolher ficar parado.
No tempo, a coisa é diferente. Tu podes ficar parado mas a vida vai andando. Sempre no mesmo sentido. E veloz.
A suprema sabedoria da vida deve ser, imagino eu, saber gozar a viagem.
Tu, como poucos, tens essa sabedoria.
E tens mérito nisso.
P.S. - Isto é tudo muito bonito mas os espíritos de poeta, como tu de certa forma tens, normalmente não têm dado muita saúde aos respectivos corpos de poeta.
Não te esqueças de temperar a capacidade de apreciar a essência da vida com a necessidade de a viver com realismo.
Um abraço com muita admiração.
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